Um dos prazeres que tenho é descobrir o já descoberto. Para a irritação dos meus amigos, é comum eu “achar” algo que todo mundo já achou há séculos e experimentá-lo como se fosse a maior novidade do momento.

“Alucinação” de Belchior é a pérola da vez. O cearense era excêntrico. Sua poesia não. Já em 76 se mostrou profeta. Belchior pregava contra a necessidade do surpreendente. Contra o imperativo do extraordinário!

Numa juventude que vivia a liberdade como lema, buscando cada vez mais a transcendência por meio das drogas e do sexo livre, Belchior dizia ser sua “alucinação o suportar o dia-a-dia e [seu] delírio a experiência com as coisas reais”. Não estava “interessado em nenhuma fantasia e nem no algo mais”.

Não vivia por experiências arrebatadoras.

Nós, ao contrário, somos oprimidos pela novidade. O cotidiano, com suas mesmas cores rotineiras, cheiros, sons e vozes comuns parece massacrar uma juventude que vive em prol de experimentar o diferente. O normal é morte. O tédio, o maior inimigo.

Talvez a verdadeira coragem e ousadia seja vivermos nossos dias comuns vendo neles o Reino. Ser um cristão contracultural hoje talvez envolva bastante aceitar uma vida ordinária. Aceitar que nem todos fomos chamados para coisas grandiosas, para vivermos o desenrolar de uma história fascinante e cheia de reviravoltas e glórias.

Existe vida além da adrenalina!

Tish Harrison merece ser ouvida:

“O que preciso é de coragem para o comum, para o corriqueiro, para a mesmice de todo dia da vida. Cuidar dos sem-teto é muito mais empolgante para mim do que escutar atentamente às pessoas da minha casa. Dar roupas e buscar comunidades cristãs na periferia requer menos de mim do que ser bondosa com meu marido numa manhã comum de quarta-feira ou telefonar de volta para minha mãe quando não sinto a mínima vontade de fazer isso.”

Jesus nos liberta da necessidade de sermos brilhantes, de sermos especiais, dos grandes feitos e das grandes histórias. Seu amor por nós, manifesto em nos resgatar de uma vida triste e vazia, é motivo suficiente para uma vida marcada por alegria real e concreta. Uma alegria que não precisa, necessariamente, ser eufórica. Uma alegria em paz.

Mais que nunca, Chesterton pode estar certo:

“a coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns”.

Somos mulheres e homens comuns alvos de um amor totalmente incomum. Isso nos basta!

2 Comments

Vem com a brasileiragem, comenta aí

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.