Acredito que a maioria das pessoas tem um sentimento de orgulho e nostalgia com a terra de onde veio. Nossas origens explicam muito sobre quem nós somos e não existe nada melhor do que pertencer a um lugar.

Eu sou do Mato Grosso do Sul, algo que você já deve ter lido na minha bio aqui no site. Eu amo falar sobre a minha terra e ilustrar na mente dos meus amigos as belezas de onde eu vim. Da serra de Maracaju e seus morros de chapéu, das águas cristalinas de uma cidade em que “bonito” é mais que um substantivo, mas um adjetivo, e das ruas largas e cheias de ipês da cidade morena.

Uma música da minha terra e muito conhecida no cancioneiro popular brasileiro é “Trem do Pantanal”, de Geraldo Roca e Paulo Simões. Ela também é considerada como o “hino não-oficial” do Mato Grosso do Sul.

Quando ouvimos essa música, ganhamos o bilhete para embarcar em uma linha de trem que partia, em seus melhores anos, do noroeste paulista (Bauru), cortando o estado do Mato Grosso do Sul no meio, passando por Três Lagoas, Campo Grande, Aquidauana, Miranda e por fim em Corumbá, na fronteira com a Bolívia. Em Corumbá, o Trem do Pantanal continuava a sua viagem em outra linha que teria o seu fim no leste boliviano, na lendária cidade de Santa Cruz de la Sierra, fundada em tempos dos vice-reinos espanhóis (1561).

Trem do Pantanal é escrita em uma viagem realizada pelos seus compositores no próprio trem, na década de 70, e composta de maneira despretensiosa e simples em uma das madrugadas debaixo do céu estrelado do Cruzeiro do Sul.  Na viagem, eles tinham encontrado fugitivos das guerras de seu tempo, pessoas que tinham o “coração batendo desigual” e cheios de medo, que procuravam um melhor caminho.

Santa Cruz de La Sierra era a cidade destino e refúgio dos viajantes do Trem do Pantanal. Nessa cidade as histórias de dor do passado poderiam ser esquecidas e um novo começo seria permitido. “Trem do Pantanal” ilustra a esperança que todo peregrino tem – a esperança de encontrar o seu lugar.

Saindo do pantanal sul-matogrossense para as terras frias do Reino Unido, encontramos uma história que também fala desse tipo de esperança. Essa história é a do Peregrino, contada por John Bunyan em 1678. Na alegoria do pastor batista, vemos o caminho de Cristão abandonando a sua cidade de guerra, a Cidade da Destruição, em direção à Cidade Celestial, a sua cidade refúgio e seu lugar de pertencimento.

No caminho, Cristão encontra diversas dificuldades e tentações, tendo o “coração batendo desigual” e em muitas vezes, cheio de medo. Mesmo assim, o peregrino Cristão continua a jornada até o seu destino.

O que povoa a mente do peregrino, seja o pantaneiro ou o cristão de Bunyan é que a sua pátria não é onde ele está. Eles procuram uma pátria melhor, um lugar que de fato eles pertencem e que os trará finalmente segurança e conforto.

A Bíblia ilustra esse sentimento também na vida do senhorzinho de Ur (já falei dele aqui no outro post), Abraão, e também da senhorinha de Ur, Sara. O texto de Hebreus 11.16 nos diz que

“eles agora aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade”.

Todo cristão e cristã é peregrino ou peregrina. Todos ganhamos uma cidadania nova que se afirma antes e que desafia todas as outras. Essa cidadania faz com que a nossa fé se entenda em uma perspectiva maior do que as nossas pátrias locais, ainda que elas tenham o seu valor.

Parece contraditório falar de uma “pátria superior” em um blog que justamente tem uma adjetivação regional. Mas não é. Afirmar uma pátria superior (res)significa inclusive a nossa esperança para a pátria local.

Pois a nossa fé no Brasil não procura se afirmar sobre os outros e dizer que somos melhores por qualquer coisa que temos. Nossa fé no Brasil não é um sentimento inócuo e bobo de patriotismo. Antes, é um encontro com o espaço-tempo o qual Deus nos deu de presente e que foi atingido pela promessa feita a Abraão (Gn 12.3), o lugar que tem particularidades lindas da multiforme graça de Deus e quadros feios que precisam ser restaurados, e a terra que nos revela uma pequena parte da terra do próprio Deus. O reino dele também é pintado de verde e amarelo.

Somos cristãos e cristãs, brasileiros e brasileiras, peregrinos e peregrinas. Que têm em Deus a sua origem e no Brasil a sua missão. Que pertencem por providência e por um breve tempo a um lugar, mas que procuram levar este à realidade e presença da cidade de Deus.

Que a esperança da cidade de refúgio, pátria a qual pertencemos de fato – muito melhor do que Santa Cruz de la Sierra ou qualquer outra cidade terrena – seja o motor de nossa locomotiva e que a jornada da vida seja uma prova de onde de fato pertencemos. Não existe nada melhor do que pertencer a um lugar. E melhor ainda pertencer ao lugar de Deus.

 

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