Recentemente, a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) anunciou o disco Sobrevivendo no Inferno, do Racionais MC’s, como parte das leituras obrigatórias para o seu vestibular em 2019. Essa notícia provocou reações diversas. Muitos acharam que esse fato era prova da decadência da educação brasileira, outros exaltaram a importância desse tipo de reconhecimento para a produção cultural da periferia.

KL Jay, DJ do grupo, comentou em seu Facebook que Sobrevivendo no Inferno “é um ótimo livro de história”, e a página do Racionais MC’s no Instagram disse que esse reconhecimento representa a “periferia ocupando a Academia”. Outros artistas também falaram da importância que Sobrevivendo no Inferno teve para eles. Segundo uma reportagem do jornal O Dia, o poeta Sérgio Vaz, ganhador de prêmios e fundador do Sarau da Cooperifa, disse que o álbum é uma universidade e que “por causa deste disco muita gente se graduou em auto estima e não entrou na faculdade do crime”, ele completa “agora é a vez da academia estudar a história de milhões de brasileiros e brasileiras que são tratados de forma nada poética”. Qualquer grupo ou MC no Brasil não seria o mesmo sem a existência de Racionais e tanto Sobrevivendo no Inferno quanto Nada como um dia após o outro dia e Holocausto Urbano são, na minha opinião, essenciais para a formação de uma consciência e representação da periferia brasileira.

O fato é que o grupo Racionais apresenta um lado do Brasil que poucos querem enxergar e que durante muito tempo não teve nenhuma voz. O lado do inferno. Da ponte pra cá, existem dois brasis, não mais o Brasil do interior e o Brasil do litoral, mas sim o Brasil do centro, do condomínio e da elite e o Brasil da periferia, da comunidade e da exclusão. Essa análise começa com sociólogos brasileiros como Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro mas ganha vida, carne e intensidade no microfone chiado e na dicção inconfundível de Pedro Paulo, vulgo Mano Brown, na voz intensa de Edivaldo, vulgo Edi Rock, e na realidade sempre crua interpretada por Paulo, vulgo Ice Blue.

O evangelho de Racionais, em Capítulo 4 versículo 3, é um grito na cara de um Brasil que deliberadamente despreza aqueles que não são como ele. Escancara “o monstro que nasceu em algum lugar do Brasil” e que “ninguém viu“. Que ainda hoje é desconforto para quem se recusa a reconhecê-los. Tanto é que, para determinado grupo, Sobrevivendo no Inferno não tem vez na academia, pois não se encaixa nos padrões poéticos e literários que eles estabeleceram. Bem conveniente, não é?

Isso marca uma profunda divisão que, mesmo depois de 20 anos (idade de Sobrevivendo no Inferno), ainda existe em nosso meio. Dois brasis (ou muitos brasis) que não deveriam estar separados, mas por medo, antipatia e falta de reconhecimento do outro, infelizmente estão. Por esta causa, Sobrevivendo no Inferno é necessário. Ainda que doa aos ouvidos (e o rap ainda é dedo na ferida!) e não agrade a norma culta de alguns, reconhecer a voz do outro, por mais diferente que este seja de nós, é importante para a nossa caminhada.

Mas o ser humano demonstra a tendência de desprezar o outro. A sua afirmação enquanto ser necessita da negação deste outro. Não dá para coexistir aceitando-o como ele é, eu preciso fazer com que ele se pareça comigo para que então seja aceito por mim. É aqui que as rupturas e guerras nascem e a realidade do inferno se faz. C. S. Lewis, em O grande abismo, retrata a imagem do Inferno como um lugar de distâncias entre os indivíduos. Da inimizade nasce a exclusão, da exclusão nasce a morte, da morte, o inferno. Inferno que não só o jovem negro da periferia de São Paulo enfrenta, mas todos nós quando decidimos desprezar aqueles que não são como nós.

Uma situação de inimizade também é relatada na Bíblia. Assim que a igreja começou a se expandir, os judeus cristãos tinham muita dificuldade de reconhecer outros cristãos vindo de religiões e culturas diferentes. Diversas questões são levantadas sobre esse assunto no Novo Testamento. O apóstolo Paulo na sua carta aos Efésios (Ef 2.14) faz referência a um suposto “muro” que tinha sido construído no pátio do templo para separar judeus e gentios. Ele diz que Cristo derrubou essa “parede de separação” que simbolizava a inimizade entre os povos. Ele fez de ambos, antes inimigos e divididos, um só povo, e aboliu de vez qualquer coisa que os separava.

Triste é constatar que em muitas igrejas brasileiras ainda existem vários muros de separação – muros intelectuais, econômicos e culturais – muros como aqueles escancarados na lírica de Racionais. Muros que sustentam o seu alicerce em legalismos e regras sem valor e que condicionam a salvação a uma obra da carne e não à obra da graça de Deus.

A minha chamada para nós, cristãos e cristãs brasileiros e brasileiras, é para a empatia, e isso se faz no caminho do reconhecimento. Este caminho só é possível diante de uma realidade oposta ao inferno da inimizade. O maior sinal de Deus para isso é (ou deveria ser) a igreja: a comunidade dos diferentes que são feitos iguais, a comunidade dos iguais que graciosamente é diferente. Para a glória de Deus.

Para sobrevivermos unidos no inferno, precisamos dar voz ao outro, independente de como ele ou ela seja. Precisamos lembrar que o muro de separação foi quebrado e que não devem existir divisões no reino de Deus. É nossa responsabilidade, como cristãos, não deixar que as fundações de novos muros se concretizem e é nosso dever reconhecer, a partir do Cristo que nos faz um, como é importante ouvir e atender as necessidades do outro. Dessa forma as distâncias do inferno se encerram e o paraíso é realizado. 

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