Meritocracia é uma palavra que parece ter voltado às diversas rodas de conversa. A ideia é simples: o que deve motivar qualquer recompensa deve ser os méritos pessoais. Logo, quem tem mais méritos, ocupa os melhores espaços. Quem tem menos méritos, o contrário. É bem lógico e faz sentido.

Não é muito difícil entender porque há um avanço dessa ideia no que tange às expectativas políticas da população. Nosso país já nasceu na base da troca de favores. Há 500 anos, quem manda, prospera e cresce é o amigo do fulano. O famoso peixe. Se tiver QI (quem indica), tem tudo.

Ora, não é difícil compreender a revolta dos que têm mérito e são preteridos. Quase todo mundo conhece pessoas excelentes, capazes, cheias de dons e talentos que estão à margem de cargos estratégicos por não terem pedigree. Basta acompanhar a gigante e caríssima dança das cadeiras dos cargos comissionados. Toda troca de governo dispara uma série de demissões e contratações.

Isso enoja muita gente. Consequentemente, há o clamor do mérito. Cada um por si e quem for melhor, que ganhe.

Acho isso um bom princípio. De fato, devemos dar incumbências a quem é capacitado e consegue provar, na prática, que pode dar conta do recado. Uma grande parte da ineficiência estatal reside justamente em não percebermos isso.

Porém, nenhum princípio pode ser absolutizado. A situação do Brasil é complexa. Deixar de perceber as estruturas de poder que inviabilizam uma concorrência franca, direta e aberta é concorrer com a crueldade.

Vamos a um exemplo: Itatinga, bairro de Campinas, é a maior zona de prostituição a céu aberto da América Latina. Só quem já colocou os pés em lugares assim sabe o horror que isso significa.

Existe uma verdadeira cidade entregue à prostituição, tráfico de drogas e violência. Andar pelas ruas e ver mulheres em plena luz do dia na calçada seminuas, sendo vendidas e exploradas, é ter contato direto com o mal. É uma extensão do inferno. Lá não há lei. É um bairro que nasceu com intuito higienista, com a ideia de afastar o indesejado pra longe.

Se já não fosse triste o suficiente a vida das mulheres, há os filhos. Crianças que crescem em quartos no fundo de um prostíbulo separados apenas por uma parede de onde suas mães estão sendo consumidas por quem tem mais dinheiro. Uma infância roubada, sem lazer, sem educação, sem nutrição, sem afeto. Um futuro cinza, de batalhas e lutas de gente grande.

Como alguém que vem deste contexto pode disputar qualquer vaga comigo em condição de igualdade? Em toda minha vida, nunca perdi uma refeição por necessidade. Sempre tive acesso a educação, alimentação, vestuário, afeto, carinho e beleza. Cheguei aqui não por meus próprios méritos apenas, mas por um conjunto de facilitadores que escancararam portas pra mim.

E quantos outros infernos existem no Brasil?

Meu convite é que reexaminemos nossos valores. Não faz parte de ser cristão nos compadecermos de quem não tem voz? Quem defenderá os que simplesmente não podem concorrer com os outros de igual pra igual?

Num mundo em que todos tiverem acesso ao mínimo de forma digna, podemos abraçar a meritocracia e que vença o melhor. Porém, num país de tanta desigualdade, ouçamos o choro dos que estão marginalizados. Por Jesus, nosso Senhor, olhemos por eles. Não os abandonemos! Eles precisam de nós!

 

 

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