Estamos no Brasil, na virada do século XVIII. Você, um português da gema, tem uma fazenda cheia de escravos e cana pra dar e vender. Pra dar, na verdade, não. Só pra vender mesmo. Afinal, ô negócio pra dar dinheiro! E coube à Providência te colocar na crista da onda.

Iguais a você, há vários. Essa terra vasta e abençoada por Deus está lotada de engenhos. Tudo é açúcar e tudo pra fora, pra vender pra Europa. Pra cá mesmo, só o dinheiro que fica pra você. É o retrato dos nossos primeiros 300 anos.

O problema é que o que dá dinheiro mesmo é cana-de-açúcar. Milho, arroz, feijão, hortaliças e mandioca não dão dinheiro de verdade. Então você, um português devotíssimo, o que faz? Planta a dita cuja até o último “microcentímetro” de terra. Tudo é só cana.

Mas o que acontece quando todos os outros fazem exatamente a mesma coisa?

Não é difícil perceber que nesse ambiente, a fome era sistemática e endêmica. Com os grandes produtores preocupados só em vender o mais caro, só tinha cana! Como virtualmente ninguém produzia outra coisa, os preços dos gêneros mais básicos subiam muito. Tanto, que a Metrópole criava leis obrigando os portugueses a plantar ao menos alguma mandioca para os escravos não morrerem. Dá pra imaginar a eficácia de tais leis.

Sobre as tais, eis o que diz Caio Prado Jr. em “Formação do Brasil contemporâneo”:

“Escusado dizer que estas determinações legais eram acremente combatidas. (…) E tão absurdas achavam as medidas, que um dos consulados, o notório senhor do engenho da Ponte, Manuel Ferreira da Câmara, não hesita em lançar-lhes seu formal desafio: ‘Não planto um só pé de mandioca para não cair no absurdo de renunciar à melhor cultura do país [cana] pela pior que nele há [mandioca]’. Mas nenhum deles se lembrou de discutir o verdadeiro problema: a fome que periodicamente afligia o Recôncavo. Porque se lembrariam dela, quando os largos proventos que tiravam do açúcar lhes davam de sobra para pagar os preços, que para eles não eram tão altos, dos gêneros que consumiam?”

Essa pergunta final repercute até hoje. Salvo as devidas proporções, o cenário não mudou tanto. Há entre nós um espírito de aproveitar o momento certo. Ou seja, ganhar o máximo possível, não importando o resto. Continua a ideia de “se ganho muito, não me importam os aumentos”. Na verdade, o caro nem é tão alto assim. É reclamação de gente que não quer trabalhar.

O Brasil clama por solidariedade. Por compaixão, no seu mais pleno significado: reconhecer a dor do outro e fazer algo a respeito.

Como cristãos, não nos basta que as coisas nos estejam bem. É preciso que estejam bem para todos! A dor dos excluídos, a fome dos outros tem que ser a minha dor e fome também. Nós devemos ser os primeiros a nos levantar em busca de uma Pátria próspera, mas para todos.

Se minha despensa está cheia de produtos baratos pra mim, mas caríssimos pra outros, miserável homem que sou. O lema do Governo talvez seja um excelente exemplo de graça comum: “Um país rico é um país sem pobreza”.

Você, que tem a barriga cheia, tem sentido a dor do Brasil?

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