“Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto?” (1)

A partir dessa pergunta o paiaçu Antônio Vieira, português de nascimento, brasileiro de coração, começa o argumento de seu conhecido “Sermão da Sexagésima”. Nesta homilia, o pároco exorta outros pregadores, que estão em Lisboa, à necessidade de se engajarem visceralmente com as verdades que anunciam.

O problema que eles enfrentam é: Há muita gente falando mas pouca gente ouvindo. Há muita semente sendo lançada mas pouca terra fértil. E um outro poeta cantaria algum tempo depois: “A cidade está cheia de sons […] Mas os outros estão surdos pra Ti” (2).

Mas, por quê estão surdos? E por quê o fruto é tão pouco? Essa é a investigação do padre em seu sermão. Para ele, uma das maiores dificuldades da pregação é a coerência da vida do próprio pregador. Ele nos diz

“Será porventura o não fazer fruto hoje a palavra de Deus, pela circunstância da pessoa? […] A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exit, qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? O conceito que de sua vida têm os ouvintes.” 

Para um protestante-calvinista, como eu, talvez seja estranho se apropriar de uma pregação jesuíta. Nos séculos XVI e XVII isso seria irreconciliável. Mas entendo que o padre tem um ponto crucial para os cristãos e cristãs de hoje.

Vivemos em um tempo de ideias, de palavras, de teorias e outras “alucinações”. Ideias que fazem muito sentido em defesas de teses e dissertações mas que tem pouco contato com as “pessoas cinzas normais” (3). Ideias que “valem a pena” (se pegar a referência aqui te dou um abraço) mas que só alimentam um feed de milhares de vídeos no limbo da internet. Ideias que logo logo, se não vividas, vão ser apenas uma contagem de visualizações em algum canal que já foi famoso.

Nós, enquanto cristãos, pregadores e pregadoras, também temos essa dificuldade. Apesar de evidenciarmos a nossa experiência de fé como algo real e concreto em nossas vidas e de sabermos que Deus nos salvou e se revelou a nós, na hora de transmitirmos isso a outras pessoas, por muitas vezes caímos no conto das alucinações e reduzimos a experiência cristã a uma proposição dogmática cinza e fria, tal como as pessoas dos nossos dias. E isso cria confusão até na nossa própria experiência. Não queremos comprometer demais as nossas vidas com aquilo que pregamos. Onde já se viu viver tudo aquilo que Jesus nos ensinou? Dar tudo o que tenho aos pobres? Hospedar gente esquisita na minha casa? Sair por aí fazendo discípulo? Deve dar muito trabalho.

Por isso Vieira chama a atenção para a diferença entre um substantivo (como um título) e um verbo. A ação é mais importante do que o título. Pregar de fato é mais importante do que ser um pregador. Ser pregador de nome não importa nada. Ser cristão de nome não importa nada. Ideias precisam de carne!

O fato é que o Verbo se fez carne e habitou no meio de nós. O próprio paiaçu (agora revelo o que isso quer dizer: “grande pai” em tupi) Vieira se utilizou desse exemplo como chave para a necessidade que temos de encarnar e viver radicalmente aquilo que pregamos. Se não o fizermos, nosso discurso será inócuo e como um sino que toca mas não faz a diferença na vida de ninguém.

Palavras são necessárias. Discursos são importantes. Mas nenhuma pregação é um fim em si mesmo. Pregações devem gerar frutos e frutos são gerados através de árvores que cresceram. Não há cristianismo sem vida real e testemunhada.

O que as pessoas de hoje precisam é de mais pregação encarnada. Discursos que são comprovados logo após você sair do seu trabalho ou descer do seu púlpito. Vidas que pregam a transformação porque foram transformadas. Vidas que abriram mão de seus substantivos para viverem o seu verbo, ou melhor, o próprio Verbo!

“Será que estamos começando a nos recomendar outra vez? Somos como aqueles que precisam entregar-lhes ou pedir-lhes cartas de recomendação? Vocês mesmos são nossa carta, escrita em nosso coração, para ser conhecida e lida por todos! Sem dúvida, vocês são uma carta de Cristo, que mostra os resultados de nosso trabalho em seu meio, escrita não com pena e tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, e gravada não em tábuas de pedra, mas em corações humanos Paulo em sua segunda carta a igreja de Coríntios (2 Cor 3.1-3, NVT, com ênfase minha)


Notas e referências
(1) Antonio Vieira, Sermão da Sexagésima (Domínio Público) – Clique aqui para ler.
(2) “Rookmaaker”, Palavrantiga (2016). O problema tratado pela música é um pouco diferente do que tratei aqui, mas o contexto é parecido, então vale a pena ouvir (se você não conhece ainda).
(3) “Alucinação”, Belchior (1976). Fiz uma breve menção (menos do que gostaria), mas o Raphael já falou sobre “Alucinação” de Belchior em um dos primeiros textos do blog, passa lá pra ver o que ele disse.

Vem com a brasileiragem, comenta aí

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.