Essa é uma noite difícil pra minha família. Depois de lutar arduamente contra o Alzheimer, meu avô está na UTI. O quadro, pra dizer o mínimo, inspira enormes cuidados. Não sabemos como vai ser o dia de amanhã.

Pensar na morte sempre trás dois perigos: cair no lugar comum e a leviandade. Quase sempre, o que se diz é o mesmo. Até porque, não há bem muito o que dizer. A experiência do fim da vida é tão vil que rompe nossa racionalidade. Qualquer elaboração parece se dissipar no vento. Muito mais que compreender, a morte parece ser algo que só pode ser experimentado, seja por quem vai, seja por quem fica.

O que me intriga é a nossa busca por imortalidade. De uma forma ou de outra, vivemos como se nunca fôssemos morrer. Ou mais, buscamos a ilusão da vida após a morte por caminhos que são, em última análise, ilusão. É como correr atrás do vento.

O ideal é o reconhecido universal. Beleza, intelecto, produção artística, habilidade esportiva, influência política, enfim, a paleta de escolhas é enorme. O fim é um só: o nome lembrado. Daí, afagamos o doce sabor de imaginarmos livros escritos sobre nossos grandes atos e nossa memória cantada por gerações.

Foi o jeito que Getúlio Vargas escolheu. Sua carta de despedida é uma apoteose. “Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.” Getúlio se viu imortal.

Como esse é um caminho pra pouquíssimos, uma vez que percebemos que simplesmente não temos um futuro brilhante, redirecionamos os mesmos sentimentos para um nicho mais reduzido. A ideia é fazer a diferença na vida de poucas pessoas, mas que se lembrarão de nós por tempos infindos, rasgando elogios atrás de elogios e emoldurando um quadro ufanista. É o mesmo nome pra história. Uma história menor em abrangência, mas igual em valor.

E eis meu avô. Um menino paraibano simples. Um jovem que tocava na banda dos carnavais de rua.  Depois, um crente assembleiano que amou seu Senhor com todo o coração. Simplesmente, um dono de uma loja de tintas no nordeste brasileiro.

Gosto de pensar que pra muito além da história, está reservado pra ele uma glória incomparável. Meu avô está a momentos de ouvir do dono do Universo: “servo bom e fiel”. Aquele galileu que morreu numa infame cruz, está assentado no trono de toda a existência esperando meu avô.

O que resta a nós? Será mesmo tão importante buscar valor em caminhos tão efêmeros? Se Deus está anotando nossas ações, de que mais precisamos? A vida é como um sopro. A eternidade é como uma rocha.

Como disse minha mãe, essa é a noite da espera. A qualquer momento o telefone vai tocar para anunciar o fim. Me enche o coração de uma paz indizível saber que há um chamado simultâneo do outro lado do rio. “Gabriel, meu filho querido, entra em teu descanso.”

É difícil não ter um pouco de “inveja santa”.

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