O Brasil é racista. Não existe discussão sobre isso. O que resta é se há percepção ou não por parte de quem não o sofre. O assunto suscita paixões e, como não poderia deixar de ser, embota, quando não obstrui, o diálogo. Porém, não enxergar o racismo é uma decisão consciente de negar o óbvio.

A narrativa de “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, do Rappa, é cotidiana. Na praça, negros cuidam de sua vida. De repente, vêm os homens (polícia) e começa a sina dos descendentes dos escravos. “Qual é negão? O que que tá pegando? Qual é negão?”. Quem vê Polícia 24hr está familiarizado com a truculência.

Para quem é branco, compreender isso é quase impossível. É passar uma vida inteira sem ser visto como potencial ameaça. O padrão, para os claros, é a cordialidade. É o “boa noite, senhor”. É a camaradagem, o vigiar e proteger. Pro outro, resta a desconfiança perene.

Para os negros, “é mole de ver”. “Sempre [o] primeiro [é] o negro pra passar na revista”. Pra quem ganha passagem aberta em condomínios fechados, é só questão de segurança, é necessidade desses tempos. O problema é que insegurança vem pintada de preto.

É fácil chamar de vitimização quando se pode comprar um café em paz. O KL Jay, DJ do principal grupo de Rap do Brasil, não tem esse privilégio. É fácil dizer que é mimimi quando pegar táxi só requer vontade. Esse direito não existe pro Emicida. De uma posição de privilégio, é muito simples escorregar pra uma minimização de um sofrimento que não me dói, de uma dor que não me atinge, de um flagelo que não me alcança. Eu não sei a dor de ser chamado de macaco.

O difícil é exercer compaixão. É sofrer com o outro, sentir a dor do outro. E mais que isso, lutar para que o outro não sofra mais. É o chamado mais básico do cristianismo. A doutrina da encarnação mostra um Cristo que assume a experiência da humanidade em sua miséria total para a redimir. Temos um salvador profundamente identificado com nossas dores apesar de não as ter até então. É no ato de as assumir que se identifica de maneira mais plena conosco.

Somos filhos dos que tinham os negros como desalmados. Num país onde os índios eram protegidos pela Igreja, os negros eram vistos como semi-humanos. Ou pior, semi-animais. Gente não alcançada por Deus. Não-gente.

O chamado para Igreja brasileira é sentir a dor do negro e se colocar ao seu lado para gritar que todo brasileiro importa. Qualquer um, entupido de melanina ou sem uma gota dela, é imagem e semelhança de Deus. Um negro é imagem e semelhança do próprio Deus vivo.

Eu não quero fazer parte de uma igreja satisfeita em não beber, não fumar, não roubar e fazer sexo só depois do casamento. A Igreja do meu Senhor dá voz aos sem voz e luta para ativamente para libertar os cativos. Meu lado é ao lado do oprimido.

Até o dia em que o camburão não terá absolutamente nada de navio negreiro.

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