Pode um cristão ser feminista? Essa é uma questão que tem seu valor e merece ser discutida – certamente num outro espaço e por alguém com maiores capacidades. Porém, não é a melhor pergunta que pode ser feita ligando os dois temas. O mundo cristão precisa discutir o feminismo, mas talvez por outra ótica.

O pano de fundo que motivou esse texto foi o caso recentíssimo da advogada morta em Guarapuava-PR. Até onde se sabe – e tudo leva a crer fortemente que de fato ocorreu assim – o marido de Tatiane Spitzner a lançou do quarto andar depois de agressões filmadas pelo circuito interno. Tudo num prédio que esbanja finura.

Tatiane sofreu na mão do seu marido desde a rua, enquanto ainda estava no carro, até a varanda, último lugar em que esteve com vida. Entre socos e chutes, passou vários minutos sob o poder de um homem muito mais forte. Foi lançada ao chão. Ficou inconsciente. Lutou pela vida no elevador. Se não totalmente públicas, as agressões ocorreram na parte comum do prédio.

Ninguém interveio. Seus últimos gritos ecoaram pelos corredores do condomínio fechado encontrando o silêncio dos outros moradores, seja pela hora avançada, seja pelo velho “em briga de marido e mulher…”.

Infelizmente, essa história está longe de configurar a exceção. Doze mulheres são mortas no Brasil a cada dia. Existe um dado obsceno e que devia revirar o estômago de quem se considera discípulo de Jesus: uma em cada três mulheres sofreram algum tipo de violência em 2017 no Brasil. São 503 criaturas de Deus que sofrem abuso a cada hora.

Entenda: esse é o nosso país! Esse é o seu país! Queira você ou não, o Senhor lhe colocou no Brasil em 2018 com a ordem de ser sal e luz. É vedado a qualquer cristão se manter impassível. É proibido não se envolver! Mais ainda, se omitir em situações de injustiça é tomar parte ativa do pecado. Não agir é pecar!

Voltamos ao início: é possível ser cristão e feminista? A priori, não importa. A pergunta está deslocada. Diante do cenário, há algo mais urgente. Não é preciso ser feminista para se compadecer. A compaixão e a sensibilidade não requerem assumir o rótulo e a narrativa do grupo.

Ser cristão no Brasil passa por perceber que algo precisa ser feito. Algo precisa mudar! Temos um grupo que não está conseguindo se defender e carece de uma ajuda externa. É uma questão complexa e multifacetada, mas foi pra missões assim que nosso Senhor nos chamou.

A regra de ouro é o próprio evangelho. Tudo aquilo que coadunar com a missão que Jesus nos legou, abracemos. Sejam demandas do movimento feminista, negro, sem terra, sem teto, operário, enfim, venha de onde vier. Da mesma forma, tudo aquilo que ferir a Bíblia deve ser sumariamente rejeitado, não importa a origem.

O chamado é para não permitir que as paixões que envolvem os debates no Facebook embotem nossa visão. O Reino que meu Senhor veio inaugurar não contempla agressões físicas, verbais, emocionais, às mulheres. Nesse Reino, não há estupros. Não há abusos de quaisquer naturezas. Nesse Reino, mulheres grávidas não são abandonadas. Nele, andam pelas ruas sem ter sua honra ferida. Sem apressar o passo e sem apito de pânico. Nesse Reino, são cuidadas como criaturas de Deus com valor e dignidade intrínsecos. Pelo simples fato de serem mulheres.

Não veremos esse Reino em sua totalidade, mas lutaremos até o fim para que se materialize o máximo possível. Não nos contentaremos com nada menos que isso.

Sou feminista? Não, sou cristão! E por ser um discípulo de Jesus brasileiro, oro e ajo para que essa realidade seja transformada por amor ao meu Senhor. Para que o Brasil respire ares de alívio, paz e harmonia.

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