O rio está em chamas. Diante do luto que nos assombra nessa segunda-feira e do soluço que esboça perguntas sem respostas, vemos diante de nós mais um capítulo da nossa história que ironicamente põe fim [material] a boa parte desta mesma história.

Um incêndio nunca começa como um incêndio. É sempre uma bituca ali, uma fiação solta aqui, uma faísca que encontra o lugar certo para queimar e de uma hora para a outra o fogo se faz.

O trágico é que essa metáfora dá algum sentido às causas da tragédia de ontem na qual a faísca é a corrupção que delibera sobre nós todo o seu descaso e a destruição é só a consequência dessa causa. Mas a corrupção é precedida por algo sutil, muitas vezes imperceptível e infelizmente compartilhado por alguns de nós: o desprezo. Este, ainda sorrateiro, vem paulatinamente ecoando o grito de “Aqui não importa”. O fogo só termina o trabalho que já tinha se consumido muito tempo antes de ele consumir todo o resto.

O desprezo se faz quando nos esquecemos de quem somos: do nosso passado, das nossas origens e da nossa história. Do que nos faz ser quem somos enquanto povo. Desprezo que se prova quando não cuidamos do que é nosso, e não só quando “tesouros” culturais pegam fogo (em 10 anos, 8 prédios dessa categoria foram tomados pelas chamas), mas também quando deixamos de nos envolver com o nosso país e ignorar a responsabilidade que temos diante dele.

Diante do complexo de “Aqui não importa”, a questão não é se visitamos ou não a um museu neste ano, ou quantos livros de história do Brasil lemos no ano passado. Mas sim sobre o que temos feito para valorizar a nossa história e sobre como temos nos engajado na nossa responsabilidade diante do nosso país (talvez isso implique depois em visitar museus e ler livros sobre o Brasil). O desprezo é o primeiro passo para a destruição. Não tem como voltar no tempo e evitar a faísca que provocou este incêndio, mas é possível evitar que novas tragédias aconteçam.

Logo, não devemos provocar faíscas. Devemos provocar a nós mesmos em toda tentação de abandonar nosso país com qualquer desprezo. Não deixemos de acreditar – pois um filho teu não foge à luta, e não deixemos de nos envolver com a responsabilidade que temos diante do nosso país.  É o próprio Deus que nos ordena tomar conta de onde estamos (leia Jeremias 29.1-7). Somos chamados a construir, habitar e fazer a paz no lugar que Ele nos deu para cuidar, pois no final este pertence a Ele.

Agora lamentamos. Incalculável e irremediável, o que aconteceu ontem foi uma das grandes tragédias da nossa história. Vamos ter que lidar com isso. Mas saímos daqui para uma mudança de mentalidade que nos conduz a uma tarefa, para que mais incêndios não aconteçam: Contra o desprezo do “Aqui não importa”, devemos valorizar e cuidar da cultura e da história que temos no lugar que Deus nos deu. Que Ele mesmo nos ajude.


Fonte da imagem: Alexandre Brum / O Dia

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