Um prelúdio

Quando eu era criança fiz parte de um coral infantil em minha igreja. Frequentemente participávamos do culto junto com a nossa comunidade e nas datas importantes do calendário cristão, como a Páscoa e o Natal, preparávamos algum tipo de música especial. Em um dessas ocasiões apresentamos a cantata “Natal Brasileiro” (1).

Nessa cantata, as crianças imaginam a história do Natal em terras tupiniquins. Maria, uma ribeirinha da floresta amazônica que se alimentava de mandioca e tambaqui, estava comprometida com José Raimundo. A história, que acontece na região Norte do Brasil, tem seu clímax em Belém do Pará. Ali, Jesus nasce em um barraco da periferia ao som de um forró cantado por anjos junto com o canto de araras e tucanos. De longe, gaudérios dos pampas atravessam o Brasil correndo para encontrar o “Rei Guri” e recolhem presentes por onde passam. Ao mesmo tempo em que sertanejos recebem a notícia do nascimento de Jesus no meio do árido sertão.

Toda essa história surge de um exercício imaginativo. Uma pergunta feita logo no início pelas crianças: “Como a história do natal seria se ela tivesse acontecido aqui?”

Esse questionamento me ensina que a narrativa bíblica não é uma história parada no tempo e presa somente na historiografia dos fatos. Pelo contrário, não se comportando como uma história qualquer, ela salta dos escritos sagrados e ganha cheiro, cor e abraço no dia-a-dia de cada um que se apropria criativamente dela.

Apropriação criativa

Por isso, o convite que essas músicas fazem é um chamado à apropriação criativa da história bíblica. Um grito de “Ei, essa história é minha também!” junto com uma reação ativa e coletiva que se desafia a viver sobre os feixes de luz lançados pelo “Rei Guri”.

Isso acontece porque o advento do Rei dos reis é o evento mais significativo de toda a história. Não há nenhum fato que resista ao poder do Deus que se fez menino para visitar e redimir o seu povo (2).

Diante dessa história, nós somos chamados a um relacionamento de histórias. Respondendo assim como a jovem Maria, que ao receber a visita do anjo em sua casa, junto com todas as suas fragilidades, disse: “Aqui está a serva do Senhor. Que se cumpra em mim conforme a tua palavra” (3).

Este relacionamento, não é uma forma de se fazer acima da história – como se fosse um dono – mas sim de se fazer na história e pela história – como se fosse um servo. É dizer que essa história é nossa porque antes nós somos dela. E assim ter um relacionamento que parte do reconhecimento de quem verdadeiramente somos.

Diante de muitos olhares clínicos sobre a palavra de Deus, reduções científicas e frias, palavras vazias e impessoais, a apropriação criativa nos leva a perguntar diante de cada narrativa bíblica: “O que essa história tem a ver comigo?”, ou melhor, “O que eu tenho a ver com essa história?”.

A resposta sincera a essas perguntas descortina diante de nós a luz de uma realidade inegável – Deus – mas não a de qualquer deus, um deus conveniente, ou um deus entre tantos outros, mas o único e verdadeiro Deus: Deus meu, Deus seu e Deus de todos nós!

O Deus dono da nossa história. Deus que age. O Deus que contemplou a humildade de seres pequenos como nós, que fez e faz grandes coisas no tempo, que estende a sua misericórdia como um manto entre as gerações e derruba todos os que se acham donos de suas próprias histórias (4). O Deus que se faz menino e se revela Rei. Deus de Deus. Luz da luz. Aquele que comprou com seu sangue precioso os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação (5). E eis aqui todos reunidos, todos num só lugar, num só pronome: Deus nosso!

Todos num só lugar

A história do advento não é uma história para ser levada como um conto religioso mas sim como a narrativa visceral de toda a história – aquela que levanta os que a confessam e abate os que a rejeitam.

O relato do fim é também o convite para um novo começo. A história narrada em Apocalipse mostra que o mesmo Rei-que-se-fez-menino virá para os seus que estão em todos os lugares e que se apropriam criativamente e ativamente de sua história. Aqueles que conhecem e o reconhecem como seu e aos quais ele responde: “Antes, são meus!”.

Este é um começo e eis a nossa história. O natal brasileiro é o reconhecimento de um natal que é nosso. Um natal que faz sentido porque é exclama pela posse da história e que se permite ser possuído por ela, dizendo criativamente: “Ei, essa história é minha!”. 


(1) Mig & Meg, Natal Brasileiro.
(2) Lc 1.68-69, ARA.
(3) Lc 1.38, ARA.
(4) Uma apropriação criativa do Magnificat, Lc 1.46-56.
(5) Ap 5.9.

Créditos da imagem: 2005, Noite Feliz – Um auto de Natal, CBTIJ. http://cbtij.org.br/2005-noite-feliz-um-auto-de-natal-cia-pequod/

Vem com a brasileiragem, comenta aí

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.